terça-feira, 14 de abril de 2009

Forno de barro

Materiais básicos
“A gente usa quatro tipos de materiais, que são as madeirinhas roliças, umas madeiras simples que em todo sitio tem, um tijolinho de barro, necessariamente um tijolinho maciço de barro, a areia e a terra vermelha”, diz Adilson. 

A madeira poderia ser daquela já pronta de serraria, mas Adilson prefere aquela mais bruta, tronco de Eucalipto, a chamada costaneira. “O material está mais barato. Para cortar o galho do eucalipto para fazer, também é mais fácil”, diz Adilson. 

Modo de fazer
A medida é de 1,30m de comprimento. Ao todo, são 14 peças. Duas têm nas pontas um corte na vertical e outro na horizontal; é um encaixe. 

Oito pranchas ficam reservadas para a base e quatro para os esteios – justamente as primeiras peças da montagem. Elas formam um quadrado de 1,30 m, e vão apoiar as peças que têm o encaixe. Como a base vai ficar a 60 centímetros do chão, a fundura é de 70 centímetros. 

O Douglas Ramos, estudante, empunha o socador; tem que firmar bem em volta do esteio. Adilson prega aquelas peças que estão debaixo da ponta pra fechar as duas laterais do quadrado. Elas vão funcionar como barrotes; sobre elas, distribuem as outras 

Mais dois chegam para ajudar: os irmãos Jacinto e João Pereira Rodrigues, produtores rurais. A motosserra corta as pontas e tiras os ressaltos, até alinhar direitinho. 

Terminada a base de madeira, a carpintaria, vem a segunda parte da construção do forno de barro: a alvenaria. O pessoal agora mistura a terra com a areia. "Tem que ser de preferência esta terra vermelha, terra de barranco, porque a terra de saibro é muito liguenta e dificulta o trabalho do assentamento do tijolo”, explica Adilson. “A medida é sempre igual. A gente colocou três latas de terra com três de areia, sem cimento. A medida de água varia muito se a areia está molhada ou seca. Tem que dar uma consistência boa", continua. 

Adilson começa agora uma parte mais solitária do trabalho, o assentamento dos tijolos. Sobre a base de madeira, ele sobe três níveis, formando uma espécie de caixote. Com a mesma massa de barro, Adilson faz um rejunte grosso e tampa todas as frestinhas. Para preencher o vazio da caixa, a turma traz oito latas de areia. Por cima da areia, vai uma camada de barro, para o assentamento dos tijolinhos. 

Adilson faz agora o piso do forno, onde vão ficar as bandejas de assado. Depois, o que chamam de lastro do forno, onde duas linhas são cruzadas, para que se possa fincar um prego bem no centro do quadrado. Com outro prego em outra linha, Adilson improvisa um compasso e demarca um círculo, deixando uma sobra de cinco centímetros em cada lado. A parede vai ser redonda. 

Assim que demarca o círculo, Adilson faz uma opção importante: define onde vai ficar a porta do forno. “A abertura da porta tem que ter sempre um mínimo de 40 centímetros”, mostra. À direita da porta, ele marca também outra abertura, por onde vão sair as cinzas, os restos dos braseiros. 

Acompanhando o traçado do círculo, Adilson assenta a fiada do tijolinho, que vai servir de base para a parede. O assentamento das paredes é a parte principal da construção do forno de barro – como conseguir fazer a cúpula, o redondo. 

Adilson conta o segredo da inclinação: “Depois que a gente demarcou certinho, no início, a primeira carreira é em nível; a partir da segunda, ela já passa a ter uma inclinaçãozinha para dentro”, explica ele. 

Adilson consegue esse efeito quebrando o tijolinho, deixando-o mais baixo do lado de dentro e mais alto do lado de fora. Do lado de dentro da parede, vai a colherada normal de massa; do lado de fora, Adilson vai acrescentando mais, conforme pende a inclinação. 

Agora, o momento crucial da construção do forno: a colocação da última peça. “É importante que a última peça fique bem ajustada, para que o forno fique completo”, explica Adilson. Neste momento, outras colheres entram em ação: Adilson conta de novo com a ajuda da turma para rebocar as paredes do forno pelo lado de fora. 

Ainda falta o acabamento. Espontaneamente, a construção do forno se transformou num mutirão, e para a finalização Adilson vai contar com a ajuda das mulheres, Cida e Ana. Faz parte do costume a mulher dar o toque final. “Vamos passar uma camada de massa fina com a tabatinga, terra da beira do rio, e a bosta de vaca”, explica Cida. 

Adilson explica que a mistura ajuda na liga. Cida e Ana dispensam a colher de pedreiro: a mistura é aplicada com a palma da mão. Importante, seu Valter: este acabamento só deve ser feito duas horas depois do primeiro reboco de barro, que os homens aplicaram primeiro. 

Cida explica porque essa tarefa cabe à mulher: “A mulher é mais delicada, e tem que deslizar com a mão. Homem tem a mão mais pesada”. Depois da cobertura, Ana e Cida têm o cuidado de molhar um pano e, suavemente, retocar o serviço, para deixar tudo lisinho. “Com isso aqui, não precisa nem pintar”, conclui Adilson. 

Acabou a estrutura, mas não dá pra usar ainda: o forno precisa descansar por uns quatro ou cinco dias, para secar bem a massa. Depois, virá uma série de cuidados: não se pode tacar fogo de uma vez; comece devagarinho, acendendo um braseiro por dia, por mais quatro ou cinco dias, até acabar com toda a umidade entranhada e também para o material se acostumar com o calor. 

Lembre-se de que este modelo que Adilson fez é muito simples; não tem manual de instrução nem chaminé. 

Depois de curado o forno, deve-se abrir um buraquinho na parte de trás – é o chamado suspiro, um jeito rústico de controlar a temperatura. Também deve-se descobrir qual a melhor portinha, de lata ou de madeira; qual é a melhor vassoura para varrer as cinzas – em Minas, dão preferência para a de folhas de alecrim do campo; e fazer testes, para descobrir qual o tanto de quentura para se assar uma broinha de fubá, um biscoito de polvilho, um pernil... 

Forno de barro, não tem dois iguais: cada um tem sua manha. Mas, olha, vale a façanha.



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