Grupo Sertantes – teatro de bonecos
Com enfoque na pesquisa, construção e valorização do teatro de bonecos, desde 2008 o grupo atua em busca das antigas rodas de mamulengos e das histórias do Brasil. O trabalho do grupo concentra-se na construção de ateliês coletivos e práticos, objetivando um resgate poético aliado ao desenvolvimento de uma técnica elaborada a partir de elementos apreendidos no próprio local.
Quando o homem tomou galope a caixa de abelha garrou na cabeça dele. Ó ... arrepio todinho! No enterro as filhas choravam tanto, que até dava dó. Que? Da queda? Não! Ele deve ter levado umas cinco mil picadas de abelha.
Isso foi em 94... Chiquinho Calixto tinha acabado de se eleger prefeito; tava a uns 2 meses da posse... Tinha! Tinha muito dinheiro... tem uns que fala que foi por vingança, por política; mas num foi não! Tá lá, até hoje, a ribanceira que ele desceu e a árvore que ele bateu a caixa de abelha.
Chiquinho ficou todo inchado; o rosto dele ficou cheio de pontinho de ferrão... meu amigo, abelha Europa é bruta! Eu fui ver ele lá, dentro do caixão, custava a caber, de tão grande.
Ah, isso foi triste! Fiquei num dó. Mas antes disso ficava voando umas abelhinhas pela sala do velório... aí até uma delas picou a viúva no olho; ela ficou lá com aquele inchaço...
Depois que o caixão quebrou na frente do altar, na hora da extrema unção. Rapaz! Voou abelha pra todo lado; infestou de abelha na igreja; um cheiro de melado, o povo saiu todo correndo... Saía assim, do nariz, da orelha, da boca...
Havia por ali um boi Rufo bravo que, se vosmecê adiantasse perto dele, de bicho virava o demônio. O boi era-se corpulentão averiguado; e o Rufo era o homem pregado em cima dele: deste bravo era só chegar pertinho do bicho pra saber. Numa mão trazia um jarro colorido de azul; enquanto na mão esquerda endireitava uma lançona grossa com a ponta afiada. Parecia uã assombração.
Predispus eu em um dia ir conhecer. Cê vira ali na ponte funda depois do córrego Bucuri; onde vosmecê ver umas cerca de gado Nelore, vai seguindo, vai seguindo... De lá de cima cê avista uã grota escura; um buraco mesmo; lá embaixo é a moratória dele: Boi Rufo Bravo.
Mas ói: o povo daqui já se acostumou em num ir lá não! É perigo e ninguém mais conhece... Vai?! Vai mesmo! Tão vai, uai. Trem doido...
Corre demais, desengonçado demais. Vai até é o capeta;
Ôu! Peraí. Já vórto. Anota aí o telefone da sua mãe, da família... Isso, agora vai com Deus e devagar.
– O diabo rega uma semente e dali nasce uma canoa com dois remos –
Diabo: Rego aqui e nasce minha barca. Nisto rego cá pra brotar o homem, a quem devo convencê-lo do inferno. Homem... brote!
– Aparece um burro mascando capim –
Burro: Iá!
Diabo: Burro, entre na barca!
Burro: Nhô!
– O burro solta um peido na cara do diabo e foge –
Diabo: Que burro burro, será que não sabe quem sou eu?
– O diabo rega a canoa e brota um homem –
Homem: Ah!
Diabo: Homem, busque aquele burro.
Homem: Sim!
– O homem sai atrás do burro. Ouve-se uma barulhada do homem capturando o burro. Eles entram em cena. O homem puxando o burro pelo rabo. O burro peida na cara do homem, mas este não o larga. –
Diabo: Rego o burro!
– O burro transforma-se na canoa. O rabo transforma-se no remo. O homem segura-o. –
E ninguém sabe, além de Oé, e jamais saberia o que é indignação e raiva até ser chumbado pelo inimigo em traição, em um solo que não te pertence, tal qual um saco de farelo ou um boneco de areia. Já agora, caído com a cara na terra empoeirada, quase morto e humilhado, escorria um catarro no nariz que se misturava ao sangue... Oé pensava na cara cínica, nas gargalhadas e nas brincadeiras pejorativas de seus inimigos ao vê-lo morto daquele jeito. Modo este de como morreu:
Sentia a sua cara molhada de um vômito que ele mesmo não sabia a origem. Não sentira seu próprio vômito. Talvez estivesse anestesiado de adrenalina. Ou que algum tiro havia ferido lugar crucial. Mas sua tristeza provinha era de pensar que seus orixás não mereciam tal tratamento. Que ele, Oé Baleeiro, um mestre popular, congadeiro de Nossa Senhora de Rosário, capitão de Moçambique, merecia ao menos estar apresentável aos seus santos, sem o catarro...
Tentou levar a mão ao rosto e limpar a cara, num último ato de bravura e resistência. Levantou a mão à altura do peito — “não se importava com a morte” — pouca terra pouca terra pouca terra — “coração tal como locomotiva” — tremulava de indignação e força de vontade — “só queria uma última dignidade” — alcançou então o queixo em atraso e não conseguiu. Morreu ali mesmo, sujo...
Três minutos depois estaria, de toda a diligência o primeiro, nu, e tão farpado de chumbo, pesado, que para empurrá-lo ribanceira abaixo, em sua cova, foram necessários cinco soldados.
Oé acertara. Era ele o saco de risadas: molambo. O motivo das piadas dos burocratas: sem honra. Morrera de chacota...
Aí, sendo-tido, já se passado muito tempo haveria (ainda na frente: o futuro), lembraria assim mesmo Tõe-Gerando a mutreta que foi aquele dia... Claro e bem lembrado estaria Tõe deste dia de hoje, momento: agora. O dia se mostrava muito calorento, anos depois: lá estava Tõe-Já-Gerado-Tõe contando o que se sucedera naquele maldito dia para o seu neto, o filho do Zé-Caliño, na beira do cocho, que era dentro da cidade mesmo:
— “No acontecido aquele vagabundo do Uría falou: Um dia a gente ainda vai rir disso... está aí uma coisa é que eu nunca consegui!” — Tõe-Gerado.
— “Mas vô, a que maneira esse tipo de morte ainda não o afetou?” — o neto zoando o avô pelas histórias rè-répetidas.
— “É-em-se-rãmo-che-vai-thciê-t’ju.t’ju.t’j.’ju.t’ju...” — Tõe-gorgolando cuspe — “Esses mininosss... sabe ouvir as culturas da gente não! Kué... Kuékuékué... rrrée...”
— “Digo, aconteceu quando, Breochó Uría, Alvina Moleira e eu, chegávamos perto da barbeira do córrego Olaria pra retirar os cachorros dê-de-cima daquele tatu-perebento...” — Kurrèé..è..é, já passando a crise! — “aí que miramos as lanternas mais na direção de onde os cachorros latiam e demos credência, ou seja, reconhecimento, de Alto-Divino-Posse no meio da matilha, devida. Pescava desatinado, perfazendo crise, e os cachorros em cima dele, tão que acuavam, tão que latiam e não largavam... como se tivesse um tatu-peba ali...” — Tõe.
Alto-Divino-Posse é um mugango cabelo-barbudo e sujo. Grandão! Sem remorso nem nada, as barbas faziam vezes de roupa. O que se sabe é que se dedica à pescaria o dia todo. Sabe-se também que enchida meia cumbuca de piaba pega o caminho de casa, pela trilha, com a vara na cacunda, e vai fazer fumaça na sua chaminé pra comer o pescado. Faz os peixes do jeito que saíram d’água, toda triparia fritando junto. Caso dê preguiça na hora de acender a fornalha ele come tudo cru mesmo. Senta em sua mesinha de cedro com a cumbuca e come. — “Homem duns maus elementos no trato!” — Alvina, côncava...
Alvina Moleira, então, tentou aproximação: — “A’ô, sô Divino!!! Como vai de piaba?” — e Divino-Posse lá quieto, calado, intrínseco nê’mesmo.
Ficaram ali parados esperando uma reação por certo tempo. Tentaram tirar os cachorros de cima do Divino até tirarem os cachorros de cima de Alto-Posse.
— “Ê Sô Divino! Sô Divino!?” — Alvina tenta, até que logo nota que sua cumbuca de peixe está cheia de transbordo.
Ali Tõe-Gerando pegou a dianteira e apanhou coragem em sua capanga e chegou mais perto: susto imediato! Alto-Divino apresentava de-falta de compostura de tudo! — “Morto-ardido! É o nome disso...” — é o nome que davam na redondeza segundo Tõe-Gerando-Tõe. Sem enterro certo, e sem reza no cadáver, morto-morto vagueia em suas cotidianas atitudes, embora um tanto desorientadas. E Divino continuava-que-continuava sua pescaria de tudo... certo é que estava um pouco magricela porque já não comia talvez há alguns dias.
— “Mas, moo-oorrto??!” — Breochó Uría assimilou de repente outras maneiras às mãos, orelhas, coração, numa tremedeira tão-tão que só seria pior se fosse de madrugada. O dedo do pé até esfriou e arrumou um chororô desenfreado que nem conseguiu patrocinar orações para que o morto-ardido do Divino falecesse em paz.
Em caso iniciado, e não em profusões de idéias fúteis, Tõe e Alvina meteram rezaria para aquele último dos dias de Alto-Posse na vida... dois cruz-credos, vinte pai-nosso, umas bênçãos para a procissão de almas, pro Boõe e umas Garatabo tajta uturucatamba, tzü, tzü, BB-brhèèéé-jrrrruuuuu, e outros tantos rumorejares que estavam à mercê. E o homem se embrenhou caminho para a banda de sua casa. — “Nunca mais se vejo-te!” — Alvina. — “Fiz-me um sinal da cruz!” — Uría trigou-se pra perto de Tõe.