sábado, 20 de dezembro de 2008

Para não restar dúvidas quanto ao protocolo da morte

Aí, sendo-tido, já se passado muito tempo haveria (ainda na frente: o futuro), lembraria assim mesmo Tõe-Gerando a mutreta que foi aquele dia... Claro e bem lembrado estaria Tõe deste dia de hoje, momento: agora. O dia se mostrava muito calorento, anos depois: lá estava Tõe-Já-Gerado-Tõe contando o que se sucedera naquele maldito dia para o seu neto, o filho do Zé-Caliño, na beira do cocho, que era dentro da cidade mesmo:

“No acontecido aquele vagabundo do Uría falou: Um dia a gente ainda vai rir disso... está aí uma coisa é que eu nunca consegui!” — Tõe-Gerado.

“Mas vô, a que maneira esse tipo de morte ainda não o afetou?” — o neto zoando o avô pelas histórias rè-répetidas.

É-em-se-rãmo-che-vai-thciê-t’ju.t’ju.t’j.’ju.t’ju...” — Tõe-gorgolando cuspe — “Esses mininosss... sabe ouvir as culturas da gente não! Kué... Kuékuékué... rrrée...”

“Digo, aconteceu quando, Breochó Uría, Alvina Moleira e eu, chegávamos perto da barbeira do córrego Olaria pra retirar os cachorros dê-de-cima daquele tatu-perebento...” — Kurrèé..è..é, já passando a crise! — “aí que miramos as lanternas mais na direção de onde os cachorros latiam e demos credência, ou seja, reconhecimento, de Alto-Divino-Posse no meio da matilha, devida. Pescava desatinado, perfazendo crise, e os cachorros em cima dele, tão que acuavam, tão que latiam e não largavam... como se tivesse um tatu-peba ali...” — Tõe.

Alto-Divino-Posse é um mugango cabelo-barbudo e sujo. Grandão! Sem remorso nem nada, as barbas faziam vezes de roupa. O que se sabe é que se dedica à pescaria o dia todo. Sabe-se também que enchida meia cumbuca de piaba pega o caminho de casa, pela trilha, com a vara na cacunda, e vai fazer fumaça na sua chaminé pra comer o pescado. Faz os peixes do jeito que saíram d’água, toda triparia fritando junto. Caso dê preguiça na hora de acender a fornalha ele come tudo cru mesmo. Senta em sua mesinha de cedro com a cumbuca e come. — “Homem duns maus elementos no trato!” — Alvina, côncava...

Alvina Moleira, então, tentou aproximação: — “A’ô, sô Divino!!! Como vai de piaba?” — e Divino-Posse lá quieto, calado, intrínseco nê’mesmo.

Ficaram ali parados esperando uma reação por certo tempo. Tentaram tirar os cachorros de cima do Divino até tirarem os cachorros de cima de Alto-Posse.

“Ê Sô Divino! Sô Divino!?” — Alvina tenta, até que logo nota que sua cumbuca de peixe está cheia de transbordo.

Ali Tõe-Gerando pegou a dianteira e apanhou coragem em sua capanga e chegou mais perto: susto imediato! Alto-Divino apresentava de-falta de compostura de tudo! — “Morto-ardido! É o nome disso...” — é o nome que davam na redondeza segundo Tõe-Gerando-Tõe. Sem enterro certo, e sem reza no cadáver, morto-morto vagueia em suas cotidianas atitudes, embora um tanto desorientadas. E Divino continuava-que-continuava sua pescaria de tudo... certo é que estava um pouco magricela porque já não comia talvez há alguns dias.

“Mas, moo-oorrto??!” — Breochó Uría assimilou de repente outras maneiras às mãos, orelhas, coração, numa tremedeira tão-tão que só seria pior se fosse de madrugada. O dedo do pé até esfriou e arrumou um chororô desenfreado que nem conseguiu patrocinar orações para que o morto-ardido do Divino falecesse em paz.

Em caso iniciado, e não em profusões de idéias fúteis, Tõe e Alvina meteram rezaria para aquele último dos dias de Alto-Posse na vida... dois cruz-credos, vinte pai-nosso, umas bênçãos para a procissão de almas, pro Boõe e umas Garatabo tajta uturucatamba, tzü, tzü, BB-brhèèéé-jrrrruuuuu, e outros tantos rumorejares que estavam à mercê. E o homem se embrenhou caminho para a banda de sua casa. — “Nunca mais se vejo-te!” — Alvina. — “Fiz-me um sinal da cruz!” — Uría trigou-se pra perto de Tõe.


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